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Sugestão de Leitura | A diversidade na Inteligência Artificial não é apenas uma questão de inclusão — é uma questão de qualidade e impacto.

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Published on May 11, 2026

A diversidade na Inteligência Artificial não é apenas uma questão de inclusão — é uma questão de qualidade e impacto.

Por: Nádia Simões, Principal Solution Engineer, Salesforce e Board Member PWN Lisbon

Trabalho em tecnologia há mais de duas décadas. Ao longo desse tempo, vi tendências nascerem, evoluírem e, em muitos casos, desaparecerem. Mas poucas transformações têm o impacto — e a velocidade — da Inteligência Artificial.

E, ainda assim, há uma pergunta que me surge cada vez mais vezes, especialmente agora: Quem está realmente por trás desta tecnologia?

A Inteligência Artificial (IA) está a reconfigurar o mundo moderno, prometendo impulsionar a economia e aumentar a produtividade global. No entanto, uma questão crítica permanece muitas vezes na sombra: quem está a desenhar e a treinar as máquinas que vão ditar o nosso futuro?

Embora as mulheres tenham sido pioneiras na história da computação — desde Ada Lovelace, que desenvolveu o primeiro algoritmo, até Grace Hopper, que criou o primeiro compilador —, a atual revolução da IA parece estar a deixar a diversidade para trás. Hoje, as mulheres representam menos de um terço dos profissionais com competências em IA em todo o mundo.

Esta sub-representação sistémica, que resulta na criação de equipas de desenvolvimento homogéneas, não é apenas um problema de justiça social ou de inclusão — é uma falha estrutural que compromete a qualidade da própria tecnologia. A ausência de diferentes perspetivas na criação de sistemas de IA gera algoritmos enviesados que automatizam — e muitas vezes amplificam — os preconceitos históricos da nossa sociedade.

Um exemplo notório é o de sistemas de recrutamento, testados, recentemente, por algumas empresas tecnológicas, que acabaram por discriminar candidatas ao aprenderem com dados históricos dominados por perfis masculinos. De igual modo, a generalização de assistentes virtuais com vozes e identidades femininas, programadas para servir, continua a reforçar estereótipos de género que já deveriam estar ultrapassados.

A realidade é, hoje, mais complexa. A IA não é apenas técnica — é profundamente humana.

A diversidade não é, portanto, um mero acessório ético; é um critério fundamental para garantir que os sistemas de Inteligência Artificial têm qualidade, são fiáveis e geram impacto positivo na vida de todas as pessoas.

A IA aprende com dados, sim. Mas também aprende com decisões: o que incluir, o que excluir, o que priorizar. E essas decisões são tomadas por pessoas.

Ignorar a diversidade custa caro. O Fórum Económico Mundial alerta que as empresas que não integram a paridade de género nas suas estratégias de IA perdem acesso a uma parte significativa do talento disponível, reduzindo a sua capacidade de inovação e competitividade a longo prazo.

Tudo isto, me leva a refletir, não só enquanto profissional de tecnologia, mas também enquanto mulher — e, cada vez mais, enquanto Mãe. Porque, quando pensamos no futuro que estamos a construir, a questão deixa de ser abstrata. Torna-se concreta: que tipo de sistemas vão influenciar decisões sobre pessoas reais? E quem esteve — ou não — envolvido na sua criação?

Ao mesmo tempo, há sinais positivos.

Líderes como Fei-Fei Li — investigadora e referência global em Inteligência Artificial centrada no ser humano — e Mia Shah-Dand, fundadora da organização Women in AI Ethics, têm vindo a promover uma abordagem mais consciente ao desenvolvimento desta tecnologia, lembrando-nos de que a IA pode — e deve — ser construída com responsabilidade, intenção e consciência.

Mas isso não acontece por acaso.

A diversidade não é um “extra” na tecnologia. É uma condição para fazer melhor. Equipas diversas questionam mais, antecipam riscos e constroem soluções mais completas. Numa área como a IA, isso faz toda a diferença.

Por isso, quando falamos do papel das mulheres na Inteligência Artificial, não estamos apenas a falar de representação. Estamos a falar de influência. De participação ativa. De ter voz nas decisões que realmente moldam os sistemas.

E isto implica, então, mudanças reais: mais acesso, mais oportunidades, mais formação e mais espaço para liderança. Mas implica também algo mais subtil — e talvez mais difícil: Garantir que essas vozes são ouvidas e têm impacto.

Hoje, olho para a IA com admiração, mas também com sentido de responsabilidade. Porque sei que aquilo que estamos a construir agora vai definir uma parte significativa do futuro. Do nosso e, certamente, das próximas gerações.

E talvez por isso esta pergunta seja cada vez mais importante para mim: Quem está por trás da IA? E, sobretudo, quem continua de fora?

Porque garantir que mais mulheres fazem parte desta construção não é apenas uma questão de equilíbrio. É uma forma de garantir que o futuro que estamos a desenhar é, de facto, para todos.

Este artigo faz parte de uma parceria editorial estabelecida entre a PME Magazine e a PWN Lisbon.  Leia este e outros artigos de referencia, aqui!