De generalistas a especialistas generalizados: quantas carreiras cabem numa carreira?
Por Catarina Nabais, presidente do Conselho Fiscal da PWN Lisbon
"Quando, em 2012, mudei abruptamente do mundo das finanças para o universo do marketing, o termo reskilling, ou requalificação, ainda não tinha adquirido a relevância que hoje tem no contexto empresarial. Na altura, intuitivamente e por traços de personalidade, segui as boas práticas de quem muda de área: voltei à escola para desenvolver competências técnicas, investi no autoconhecimento e apostei crescimento de competências transversais, socioemocionais e comportamentais. Durante este processo, descobri paixões que não estavam no meu radar — como a tecnologia e a comunicação —, e ganhei consciência de valores pessoais que desde então me orientam e percebi também que nunca mais voltaria a ser uma financeira “pura”. Mesmo sabendo que “podes tirar uma pessoa do mundo das finanças, mas não podes tirar o mundo das finanças de uma pessoa”.
Como é que estes termos — reskilling, upskilling — passaram a fazer parte da atualidade? Há não muito tempo, as profissões eram mais lineares e era bastante mais fácil preencher aqueles formulários onde temos que colocar a profissão. Hoje, é quase um exercício criativo: ou colocamos o curso universitário que tirámos — “Gestor”, “Informático” — ou, quando o formulário permite, inventamos novas atividades — “Product Owner”, “Marketeer” — e mudamos conforme a carreira se desenrola. Cada vez mais profissionais exploram trajetórias improváveis, e mesmo aqueles que iniciam e terminam a carreira na mesma área são obrigados a optar por, ou alargar o seu leque de conhecimentos especializados ou perder relevância. A requalificação e as especializações tornaram-se inevitáveis, tanto para profissionais como para empresas de todos os setores e dimensões. Assim como o valor dos profissionais capazes de ligar mundos diferentes, combinar experiências diversas e criar novas perspetivas se tem tornado evidente.
A tecnologia tem sido um dos grandes impulsionadores desta aceleração da mudança. Entre a automação, a digitalização, a massificação da inteligência artificial e a ascensão da computação quântica, a escassez de talento tecnológico coexiste com o receio da perda de empregos e da desatualização de competências. Esta realidade é visível no terreno: empresas tecnológicas têm vindo a integrar perfis híbridos oriundos de áreas tão distintas como psicologia, economia, marketing e outras, formando-os internamente para funções digitais e tecnológicas, ou recrutando profissionais em reconversão de carreira. Ao mesmo tempo várias instituições, pubicas e privadas, têm formado e requalificado centenas de profissionais de áreas não tecnológicas para funções digitais.
No meio de tanta mudança, entre requalificar, atualizar e aprender continuamente, sentimos uma necessidade quase biológica de nos reinventarmos, tanto quanto nos seja sustentável. Mas há um ponto-chave: saber aquilo que queremos manter, o legado que queremos passar e “quem” escolhemos ser. Este é um ponto fixo e um sentido de direção que vem de dentro — a nossa visão, os nossos valores, aquilo que não estamos dispostos a negociar e o impacto que queremos ter a longo prazo.
As transições de percurso fizeram-me descobrir a paixão pela tecnologia, pelo impacto transformador que pode ter nas pessoas e organizações, mas acima de tudo fizeram-me valorizar o trabalho das organizações que apoiam este tipo de reengenharias. Comunidades como a PWN Lisbon têm um papel determinante no sucesso da mudança e da reinvenção, funcionando como espaços de aprendizagem, partilha e crescimento, que dão estrutura à mudança e a tornam mais sustentável. São comunidades como estas que materializam o poder das redes humanas, proporcionam experiências que expandem a visão, aumentam as zonas de impacto e fazem crescer além dos seus próprios mapas todos os que nelas se envolvem.
Hoje, talvez mais do que à questão de quantas carreiras cabem numa carreira, precisemos de responder à pergunta: quantas versões de nós próprios temos a coragem de esculpir ao longo da nossa trajetória e quais os recursos queremos (ou precisamos) para nos capacitarmos a reinventar-nos?
Acredito que o percurso de especialistas e generalistas para especialistas generalizados é onde reside atualmente o futuro do trabalho.