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Liderar com mundo: lições de Mandela, Guterres e Merkel, por João Maria Botelho

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Published on August 7, 2026

Liderar com mundo: lições de Mandela, Guterres e Merkel

Por: João Maria Botelho, jurista, Forbes Under 30 em Sustentabilidade, embaixador do EU Climate Pact e fundador da Plataforma Internacional de jovens Generation Resonance.

Liderar com mundo não é falar muitas línguas, circular em fóruns internacionais ou ocupar os lugares de maior visibilidade. É ter escala interior, conhecer a história, compreender o poder, medir consequências e decidir sem nunca descurar a responsabilidade.

A minha geração fala muito de propósito, mas fala pouco sobre liderança, talvez porque liderar obrigue a uma pergunta menos confortável: que preço estamos dispostos a pagar pelo futuro que dizemos querer?

Mandela, Guterres e Merkel ajudam-nos a pensar essa pergunta. Não porque sejam figuras perfeitas. Nenhum líder sério o é. Mas porque mostram três formas raras de autoridade: reconciliar quando a vingança parecia natural; mediar quando o mundo prefere fechar portas; decidir com frieza quando a política vive do imediato.

Liderar com mundo começa aí, na capacidade de olhar para lá do momento, do cargo e da própria geração.

De Mandela, aprendemos que vencer não basta. A questão decisiva é o que se faz depois da vitória. Na África do Sul pós-apartheid, Mandela podia ter deixado que a maioria democrática nascesse como “revanche”, não o fez – aceitou a transição negociada, apoiou a Comissão da Verdade e Reconciliação e usou até símbolos difíceis, como o rugby, para dizer ao país que a nova África do Sul não seria construída contra uma parte de si própria. A sua liderança teve essa raridade: transformar uma vitória política numa possibilidade de convivência;

De António Guterres, aprendemos a liderança como persistência num terreno difícil. Primeiro nos refugiados, depois nas Nações Unidas, trabalhou quase sempre onde a política já chega tarde: guerras, deslocações forçadas, crises humanitárias, clima, perda de confiança. O seu papel mostra que liderar não é ocupar o “palco central”, é solidificar e manter canais abertos quando todos preferem fechar portas.

De Angela Merkel, aprendemos a força da contenção. Na crise do euro, na crise dos refugiados, na pandemia, a sua autoridade raramente veio do gesto dramático. Veio do método, da prudência e da capacidade de transmitir estabilidade quando a política parecia dominada pela ansiedade. Num tempo viciado na reação imediata, Merkel lembra-nos que liderar também é resistir ao fácil imediato e decidir com peso.

Estas três referências ajudam a desenhar um retrato possível do líder de que precisamos. Não um líder perfeito, porque isso não existe. Um líder inteiro. Alguém com visão, mas também com execução. Com propósito (mas sem transformar o propósito em slogans); com autoridade, mas sem tiques autoritários; com capacidade de unir, mas sem confundir unidade com unanimidade; e, sobretudo, alguém com mundo suficiente para perceber que amar um país não é fechá-lo sobre si próprio. É exigir-lhe mais: mais ambição, mais seriedade, mais futuro.

Precisamos de líderes fortes, mas não no sentido pobre da palavra. Forte não é quem grita mais alto, ocupa mais espaço ou fabrica inimigos para parecer indispensável. Forte é quem consegue convocar pessoas diferentes para um projeto comum, proteger instituições mesmo quando elas limitam o seu poder e compreender que competitividade, coesão social e sustentabilidade já não pertencem a conversas separadas.

É aqui que a liderança deixa de ser um conceito abstrato. Clima, inteligência artificial, energia, água, dados, indústria, defesa, educação e talento estão ligados pela mesma pergunta: quem tem capacidade para decidir, financiar, executar e proteger o que decide? A Europa percebeu, tarde e com custo, que valores sem produtividade, investimento e escala ficam sem instrumentos. Regular bem não chega quando se depende de terceiros para energia, semicondutores, matérias-primas críticas ou infra-estrutura digital.

Num momento em que o mundo se prepara para escolher o próximo secretário-geral das Nações Unidas, esta pergunta ganha outro peso. O próximo grande líder global terá de conhecer a linguagem da paz, mas também a dureza da economia; compreender os Estados, mas não esquecer as pessoas; saber que guerra, pobreza, clima e tecnologia não são abstrações, mas forças que moldam a vida concreta de milhões. Terá de ser diplomata, estratega, construtor de confiança e guardião de futuro.

É também por isso que os jovens não podem tratar a liderança como um tema distante. Seremos nós a viver os efeitos das escolhas que hoje se fazem sobre dívida, habitação, clima, inteligência artificial, defesa, energia, educação e o lugar da Europa no mundo. Pedir voz é pouco, é preciso chegar com preparação, memória e sentido de responsabilidade, porque participar não é ocupar espaço: é responder pelo que se propõe.

Liderar com mundo é recusar a pequenez, mas também a facilidade. É conhecer a História sem a usar como desculpa. É amar Portugal o suficiente para lhe exigir execução, escala e ambição. É acreditar na Europa sem fechar os olhos à sua lentidão, à sua dependência externa e à dificuldade que tantas vezes tem em transformar princípios em poder real. Propósito, aqui, não é um add-on de discursos. É a disciplina de tomar decisões presentes que abram futuro: formar melhor, investir melhor, proteger melhor,  competir melhor e governar com mais seriedade.

No fim, talvez a liderança comece nesse ponto simples e exigente: usar influência, transformar poder em responsabilidade e perceber que unir não é apagar diferenças. É criar condições para que elas possam construir alguma coisa em comum. Precisamos de líderes que pacifiquem sem adormecer, que ambicionem sem dividir e que tenham coragem para perguntar, antes de cada decisão: que país, que Europa e que mundo ficam depois de nós?

Este artigo foi publicado na edição de Julho (nº. 187) da Human Resources. Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.