Como a IA está a reescrever as nossas relações, a gestão das emoções, a razão e o futuro da humanidade!
Por: Maria João Antunes, Conselheira Estratégica em Liderança, Executive Coach, Autora, e Mentora da PWN Lisbon

Inquietações que me assaltam a mente: IA evolução ou ameaça? A ética na IA! IA traz progresso sem limites? Será que a ambição humana vai acabar com a humanidade?
Gostava de começar por referir que tinha outro assunto em mente quando me convidaram para escrever este artigo. No entanto, ocorreu, entretanto, uma catadupa de notícias que me levou a repensar o tema que, além de atual, é sobejamente importante para o mundo
Pessoalmente reconheço um enorme potencial na IA, sobressaindo a sua incrível capacidade de apoiar a medicina e transformar a saúde humana. Quer nas empresas quer na vida privada é enorme a facilitação dos processos, hoje podemos resolver imensa coisa sem nos levantarmos da cadeira, eu estou grata à evolução tecnológica.
Não obstante, os perigos da IA já não pertencem ao domínio da ficção científica, eles estão visíveis nos ecrãs dos jovens, nas redes sociais onde observamos “influencers tóxicos” e assistimos ao surgimento de humanóides projetados para substituir a interação humana.
Em junho passado, li um artigo do CEO da Anthropic, Dario Amodei, alertando que as capacidades da IA avançam a um ritmo vertiginoso, enquanto as políticas publicas e legislação não seguem o mesmo ritmo, o que vindo de alguém ligado à IA se torna mais preocupante.
Este ano foi encomendado um estudo, em 4 países da Europa, pela autoridade francesa de proteção de dados CNIL, realizado a jovens com idades entre os 11 e os 25 anos, que revelou que 60% dos jovens europeus recorrem a chatbots de IA para apoio emocional e aconselhamento. O estudo revela que quase um em cada dois jovens já utilizou a IA para discutir assuntos íntimos ou pessoais e fazem-no porque consideram mais fácil.
No entanto, não são só os jovens, também adultos pedem tanto apoio psicológico como conselhos médicos ou jurídicos à IA.
Os Chatbots de IA, foram programados para responder sem qualquer tipo de julgamento, ou intuição humana.
Outro tema que me chamou a atenção foi a Conferência Mundial de IA, realizada na China em julho. A China apresentou um “exército” de robôs capazes de trabalhar 24 h/7dias, robôs médicos inteligentes e robôs cuidadores, que criam a ilusão de uma presença consciente e afetiva.
Se a dependência emocional é perigosa e isola os jovens no espaço privado, a forma como a IA opera nas redes sociais amplifica o perigo na esfera pública.
Estamos a assistir ao desenvolvimento rápido de influenciadores tóxicos, algumas redes inclusive a nível mundial, que promovem o ódio e proliferem a misoginia, encontrando na IA o seu motor perfeito. Este é um tema que me é particularmente caro, defendendo eu a igualdade de género e respeito pela diversidade.
Li uma notícia publicada no jornal Expresso, em 26 de julho, cujo título reproduzo:
“Deus, misoginia e anti-semitismo: a indústria do ginásio alimenta-se de velhos dogmas. Obcecados com o corpo musculado, há jovens rapazes que não largam o ginásio nem Deus, odeiam mulheres, imigrantes e judeus. Investigámos cem contas no TikTok que revelam novos ângulos da manosfera.”
O maior perigo reside na normalização destes discursos, porque os jovens grandes consumidores das redes sociais são expostos repetidamente a ideias misóginas otimizadas por IA.
A história prova-nos que a emancipação da mulher foi alcançada pela luta, pela coragem de várias mulheres enfrentando perigos e algumas até a morte para alcançarmos os direitos que hoje temos.
Será que as próprias jovens de hoje têm consciência que no passado não podiam votar, não podiam desenvolver certas atividades, não podiam abrir conta bancaria ou sair do País sem autorização do marido?
Será que os pais e as mães destes jovens não os conseguem ajudar, será que as redes têm mais influencia que a história e que a família?
Quando os nossos jovens procuram acolhimento em algoritmos sem alma, quando as redes sociais transformam o ódio e a misoginia em mercadoria lucrativa, e quando nos preparamos para aceitar a companhia mecânica de humanoides em troca de relações humanas, já não estamos apenas a usar uma ferramenta estamos a ser moldados por ela.
Eu sou utilizadora da IA, e ficaria muito satisfeita se a humanidade fosse preparada para esta evolução, no entanto pelo que vemos na atualidade existem perigos iminentes, vejamos: consultas a IA para apoio a diversos níveis, ataques cibernéticos, fraudes bancarias, manipulação de dados, burlas fáceis com mensagens falsas, mas, manipulação dos algoritmos.
A tecnologia devia servir para amplificar o nosso potencial, libertar o nosso tempo e aproximar-nos, nunca para nos moldar ou debilitar a nossa capacidade de pensar, sentir e empatizar.
É urgente desenvolver rapidamente políticas publicas, sensibilização das populações de como lidar com a IA. Se não impusermos limites claros à forma como permitimos que os algoritmos influenciem o nosso pensamento e as nossas conexões, arriscamo-nos a acordar num mundo perfeitamente otimizado, mas profundamente desumano, oco e perigoso.
A IA hoje é um campo de disputa pelo poder económico, tecnológico e geopolítica, transformando aquilo que poderia ser maravilhoso para a humanidade, num enorme risco. Oxalá esteja enganada! Em último recurso a IA devia poder ser desligada com um botão de emergência!
Aproveitemos os benefícios tratando dos perigos iminentes! BOAS REFLEXÕES!
Este artigo faz parte de uma parceria editorial estabelecida entre a PME Magazine e a PWN Lisbon (Professional Women’s Network).