Sugestão de Leitura | A importância da diversidade num mundo polarizado
A importância da diversidade num mundo polarizado
por João Pedro Tavares, Consultor da PWN Lisbon para a área de ESG
A diversidade pressupõe que é efetiva, ou seja, é uma realidade com espaço de presença numa organização, instituição ou na própria sociedade. Se assim for é uma alavanca de criação de valor. Caso assim não seja, não é diversidade mas estatística inócua ou quotas sem valor. Uma organização que consegue conjugar, de forma balanceada e valorizada, ativa e participativa, seniores e jovens, géneros distintos em múltiplas gerações, pessoas de origens, formações e escolhas distintas, opiniões diversas, é riquíssima pois desenvolve em si mesma novas oportunidades de inovar, de pertença, ou de visão de futuro. Mas também, capacidade de escuta, respeito pelo outro, busca de um bem que vai para lá do indivíduo. É terreno fértil que promove uma inteligência coletiva, onde a comunicação é bidirecional e pode mais facilmente viver com propósito, sentido de missão e de realização mais ampla. Deixa de competir com outros e passa a competir com a melhor versão de si mesma, procurando superar-se, recriar-se com foco, ir sempre mais além. Cultiva uma tensão fecunda que dá mais trabalho mas é superada por muito maior proveito. “O tempo é superior ao espaço”, como a estratégia e a visão de longo prazo é superior à tática de curto prazo.
No outro extremo, uma organização – ou sociedade – sem espaço para a diversidade torna-se diretiva, monolítica, como se de uma monocultura se tratasse. Não atenta nem dá voz a quem é diverso. No limite, não respeita o outro. Pior ainda, em situação extrema, chega a cancelá-lo e pode ser injusta na forma como apenas a alguns chegam as oportunidades. À cultura dá lugar o culto, o copy-paste, a imitação, a contrafação, a rapidez enganosa do “repete o que já fizemos” ou “pensa como eu que já pensei no tema”. É rápida a decidir ou impõe decisões, respira aparente eficiência de curto prazo mas é pouco eficaz a prazo.
O mundo em que vivemos está polarizado e apesar de encontrarmos um pouco de cada uma destas realidades, pois é enormemente diverso, acaba por viver em extremos que se acentuam, em que prevalece quem fala mais alto ou quem tem mais poder, manifestando-se de forma impulsiva, discricionária e confrontativa. Pior ainda, nunca tivemos tantas capacidades e competências para que não fosse assim mas esta é a realidade reinante e predominante. O maior desafio está pois no carácter dos líderes e no seu exercício de poder.
Importa por isso refletir nos valores, princípios e carácter que se coloca a um líder perante estes desafios. Como conjugar estas realidades, “num mundo poliédrico”, de mobilidade, de redes sociais e de algoritmos que nos dão uma aparente mas enganosa maior liberdade? Como conjugar certezas TikTok que de tão proclamadas se tornam profundamente enraizadas com tradição, sensatez e sabedoria?
Como promover uma inteligência coletiva que exige espaço e tempo, respeito e escuta, busca genuína do outro? Como ir para lá dos scorecards e das métricas e procurar um impacto mais amplo em respeito por esta casa-comum que é o nosso planeta?
Que lugar para a ética, a estética e a beleza? Ou para a sabedoria de coração num mundo dominado pela crescente utilização de tecnologia, de que se destaca a inteligência artificial, robotização, e as “máquinas que aprendem” (machine learning), entre outras? Em cada dia que passa surgem novas soluções de enorme potencial. Nos desafios que são agora colocados, deveremos olhar estes avanços tecnológicos como intrusos? Ou como aliados? Como oportunidades? Ou como ameaças? É um enorme erro, talvez o maior, deixar de olhar para o ser humano como o centro e um fim, substituindo-o pela tecnologia que é sempre um meio.
O homem e, sobretudo, a sua dignidade, deve ser o princípio e o fim de todas as coisas, devendo continuar no centro das organizações, da economia e do desenvolvimento. Que lugar para a pessoa, a família, a tradição, numa sociedade que descarta com rapidez e onde o “prazo de validade” é curto?
Tenhamos sempre presente que “a unidade prevalece sobre o conflito” (uso neste artigo muitas expressões do Papa Francisco) em que podemos e devemos promover a diversidade de opiniões e visões, mas alicerçada sempre na convergência de objetivos em prol do bem comum, o bem maior. Ouvir e escutar o outro como caminho para a unidade, apesar da diferença, exige humildade e capacidade para aceitar essa diferença. Terminar no conflito e ficar satisfeito com o resultado, como se de uma vitória se tratasse, é pobre pois a unidade é sempre mais edificante do que o conflito e é construída entre as partes.
Por isso são determinantes pessoas que atuem com espírito de serviço, em particular os líderes, e não como um exercício de poder ou de afirmação pessoal. Que conjuguem curto com médio e longo-prazo. Que busquem um bem maior que vai para lá das suas ambições pessoais e que tenham sempre em atenção o todo, o que inclui os mais desprotegidos e frágeis (também aqui uma demonstração da importância da diversidade). Esta tensão é mais plena e completa, mesmo que mais complexa e não exclui que se seja ambicioso, focado, competente, eficaz e eficiente.
A diversidade pode contribuir para um mundo mais convergente, mais justo, mais próspero, mais desenvolvido e ser um aspeto determinante num mundo que é crescentemente polarizado. Estes serão temas a serem abordados no próximo evento da PWN Global que irá decorrer em junho de 2026 em Lisboa. Esteja atento.
Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.
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