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Liderar com Mundo: A deterioração silenciosa dos altamente funcionais, por Marina Cecchini

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Published on July 15, 2026

Liderar com Mundo: A deterioração silenciosa dos altamente funcionais

Por: Marina Cecchini, psicóloga clínica e do desporto, docente e membro PWN Lisbon

Há pessoas cansadas que continuam a parecer brilhantes. Porque alta performance e alta deterioração conseguem parecer exactamente iguais durante bastante tempo. Leia o artigo de Marina Cecchini, psicóloga clínica e do desporto, docente e membro PWN Lisbon.

Há gestos muito contemporâneos que passaram a ser interpretados como competência: responder a mensagens no elevador, confirmar uma reunião entre dois voos, ouvir um áudio em velocidade acelerada entre duas chamadas, jantar com o computador aberto. Voltar de férias já parcialmente atrasado.

Durante muito tempo, estes comportamentos foram lidos como sinais de adaptação. Pessoas capazes de atravessar contextos complexos, equipas exigentes, decisões rápidas e múltiplas camadas de responsabilidade sem perder eficiência. E, em muitos casos, são mesmo.

O problema é que alta performance e alta deterioração conseguem parecer exatamente iguais durante bastante tempo. Ambas entregam. Ambas mantêm resultados. A diferença raramente aparece na agenda, surge no custo invisível da permanência.

Existem, hoje, profissionais extraordinariamente funcionais que continuam admirados precisamente no momento em que já começaram a perder margem interna para continuar a viver daquela forma. E talvez esta seja uma das características mais difíceis de reconhecer nos ambientes de elevada exigência: a deterioração raramente chega sob a forma de ruptura visível. Chega sob a forma de adaptação contínua.

Pessoas que continuam competentes, mas já não recuperam verdadeiramente. Que permanecem disponíveis, embora vivam em estado contínuo de antecipação e progressivamente ausentes de quase tudo o que não tenha utilidade imediata. Nada disto costuma ser percebido rapidamente porque o funcionamento permanece intacto. Às vezes, melhora.

Há líderes que atravessam meses inteiros sem falhar uma entrega, enquanto silenciosamente deixam de dormir de forma reparadora. Executivos que mantêm clareza estratégica enquanto vivem num estado fisiológico de vigilância contínua. Mulheres altamente competentes que organizam equipas, famílias, agendas internacionais e decisões complexas, enquanto o corpo começa lentamente a funcionar apenas em regime de compensação.

Numa terça-feira qualquer, entram numa sala já a responder a outra conversa. Pousam o telefone virado para baixo sobre a mesa como quem ensaia uma pausa que sabe antecipadamente que não vai durar. Sorriem. Conduzem decisões difíceis. Mantêm precisão.

Quase ninguém percebe o nível de exaustão necessário para continuar a parecer completamente funcional. Talvez parte da dificuldade esteja no facto de alguns dos ambientes mais sofisticados terem aprendido a transformar sobrecarga em elegância funcional. A disponibilidade permanente. A rapidez de resposta. A capacidade de absorver mais uma mudança sem alterar o tom. A resistência emocional silenciosa.

Durante anos, a ideia de resiliência foi associada à capacidade de suportar. Mas existe uma diferença importante entre adaptação viva e adaptação sob tensão contínua. A primeira preserva movimento. A segunda consome recuperação. E recuperação tornou-se uma das experiências mais comprometidas da vida contemporânea.

Muitas pessoas já não descansam verdadeiramente. Apenas interrompem tarefas. O corpo pára, mas a atenção continua activa. O jantar acontece ao mesmo tempo que se responde a uma última mensagem. O fim-de-semana transforma-se em reorganização logística entre fusos, agendas e pendências acumuladas. As férias tornam- se tempo de actualização. Mesmo o lazer passa a ser vivido sob uma espécie de produtividade invisível.

A consequência nem sempre é colapso. Às vezes, é apenas uma vida que vai perdendo habitabilidade. Menos presença. Menos margem interna para existir fora da exigência. Há pessoas que já não reconhecem em si mesmas nenhuma forma de valor que não esteja ligada à capacidade de responder.

Este talvez seja também um dos pontos mais complexos da liderança hoje. Os ambientes profissionais continuam a medir muito bem entrega, velocidade e consistência, mas ainda têm enorme dificuldade em reconhecer sinais precoces de erosão prolongada.

Porque as pessoas mais deterioradas nem sempre são as menos funcionais. Frequentemente, são as mais admiradas. Pessoas que atravessam sucessivas mudanças sem nunca deixar de responder.

Existe uma razão pela qual tantos profissionais altamente competentes relatam uma estranha sensação de desencontro com a própria vida, apesar de aparentemente estarem no auge da capacidade produtiva. Nem sempre se trata de fragilidade emocional. Muitas vezes, trata-se apenas de ausência prolongada de recuperação real. E recuperação não significa apenas descanso físico. Significa voltar a existir, sem estado contínuo de prontidão.

Talvez por isso algumas das conversas mais importantes sobre liderança já não estejam apenas relacionadas com performance, crescimento ou inovação. Estão relacionadas com a possibilidade de permanecer humano dentro de contextos de elevada exigência. Com equipas eficazes que não precisem de viver permanentemente em sobrecarga para continuar funcionais. Com culturas onde disponibilidade total não seja confundida com compromisso.

Talvez o problema contemporâneo já não seja apenas a quantidade de exigência que uma vida suporta. Mas aquilo que uma pessoa precisa sacrificar de si para continuar a parecer perfeitamente capaz.

Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 186) da Human Resources.

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